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set 22 2018

Especial Setembro Amarelo: caminhos para a prevenção

Muito se tem debatido sobre qual seria a melhor forma de lidar com alguém que pensa em tirar a própria vida. Enquanto alguns defendem que se deve falar o básico para que outros casos não aconteçam, uma outra linha de pensamento diz que é preciso sim conversar sobre o assunto, trazendo o máximo de informações que puder.

A psiquiatra e membra da Associação Psiquiátrica da Bahia, Miriam Gorender é uma das que acreditam que a prevenção passa por uma boa conversa. Para ela, quando uma alguém afirma que vai cometer suicídio, é necessário que se deixe qualquer estigma de lado. “O que fazer quando uma pessoa próxima te diz que vai se matar? Pergunte. A gente não pode ter medo de perguntar. Isso ajuda. Mais de 90% das pessoas que cometem suicídio chegam a anunciar ou dar a entender que irão fazer isso, porém, elas ainda sentem que não pode falar disso por medo e vergonha”, afirma.

Para a psiquiatra, também é necessário romper com alguns pensamentos comuns a respeito do ato. “Devido ao tabu e preconceito, o suicídio têm sido tratado como uma decisão voluntária e consciente, quando na verdade, existem condições e doenças que alteram o senso de realidade e prejudicam a capacidade de tomar decisões e controlar os próprios atos. Porém, uma vez tratadas, é possível recuperar o autocontrole”, explica.

Ainda segundo a doutora, levar o suspeito até uma emergência de hospital, ou psiquiátrica é essencial para garantir que o pior não aconteça. Também é recomendado que não se deixe a pessoa sozinha, e que na conversa, se evite julgamentos e críticas.

Presente em todo o país, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é um dos meios pelo qual se pode buscar ajuda de forma sigilosa e anônima. O atendimento pode ser realizado através do telefone gratuito 188, por e-mail ou chat disponível no site da Instituição.Tudo feito inteiramente por voluntários.

A Bahia atualmente conta com duas sedes: uma em Salvador, e outra inaugurada recentemente em Feira de Santana (a 106 km de Salvador), porém, tanto o serviço do site quanto do telefone podem ser acessado de qualquer local do Brasil, independente da presença da sede.

Segundo a porta-voz na Bahia, Joseana Rocha, a organização já funciona há 30 anos em Salvador, e atualmente, a capital baiana têm recebido uma média de 3 mil ligações por mês. Em junho, o número tornou-se gratuito em todo o Brasil. Após a mudança, as ligações aumentaram em aproximadamente 1 mil, inclusive no estado.

Porém, Joseana ressalta que procurar o CVV não dispensa a procura por um profissional da área de saúde. “O nosso papel na prevenção, é estar disponível para conversar com quem busca ser ouvido. O CVV é uma espécie de vacina contra a solidão, mas não substitui nenhum profissional. É como se fossémos um amigo provisório disponível a ouvir com respeito, confiança, compreensão e aceitação”, diz.

Do outro lado da linha, estão pessoas como Cássia. Ela é uma das voluntárias do local, e a vontade de participar veio após uma experiência pessoal com o suicídio. Há 16 anos ela tentou o suicídio, porém, a tentativa não deu certo, e ela acabou entrando em coma. Quando acordou, veio a certeza de que havia cometido um erro, e mais, queria ajudar outras pessoas a não passar pela mesma situação. Após o tratamento e total recuperação, ela decidiu integrar o time do CVV, e já faz parte da iniciativa há quatro anos.

“As pessoas que ligam podem falar sobre o que quiserem, a nossa escuta é diferenciada, e diferentemente do que pensam, não estamos lá somente para escutar, como também para interagir, e muito, com quem liga. Participar do CVV, para mim, significa gratidão. Tenho a oportunidade de devolver por pelo menos cinco horas da minha semana, toda a chance de viver que recebi gratuitamente”, conta.

Além do CVV, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), por meio do Centro Antiveneno da Bahia (Ciave), oferece atendimento no Núcleo de Estudos e Prevenção do Suicídio (Neps). O contato pode ser feito presencialmente por meio do atendimento ambulatorial do núcleo, que funciona no Hospital Geral Roberto Santos (Cabula), ou por meio do telefone (71) 3116-9440.

Em Salvador, três emergências contam com atendimento psiquiátrico 24 horas: Hospital Juliano Moreira, em Narandiba; Hospital Mário Leal, no IAPI; e o 5º Centro de Saúde, localizado na avenida Centenário. Já o atendimento ambulatorial pode ser obtido no Neps, que funciona no Hospital Geral Roberto Santos (Cabula).

Usar ou não os porquês?

Juntamente com as correntes suicidas de internet, a exemplo do jogo “Baleia Azul”, um dos responsáveis por trazer à tona o debate sobre o suicídio foi o seriado “Os 13 Porquês (do inglês, 13 Reasons Why). A série, produzida pelo serviço de streaming Netflix, narra a história Hannah Baker, uma aluna do ensino médio que tira a própria vida e deixa gravações em fita cassete, explicando os 13 motivos que a levaram a isso.

Embora tenha recebido muitos elogios, a série também foi alvo de críticas sobre a forma como lidou com assuntos tão delicados. Especialmente nas cenas explícitas que mostram a violência sexual e a forma como foi realizado o suicídio. No ano passado, quando foi lançada a primeira temporada, o CVV divulgou que o número de e-mails com pedidos de ajuda havia subido cerca de 445%. Houve alta ainda de 170% na média diária de visitantes no site. Segundo o centro, a maioria das pessoas que buscavam atendimento era jovem e se identificava com a dor da personagem principal.

No Reino Unido, o seriado foi utilizado como fonte de inspiração para a criação de uma campanha contra o suicídio chamada “13 Reasons Why Not”, ou “13 Razões Por Que Não”. Todos os dias, antes das aulas começarem, são exibidas mensagens de estudantes relatando suas experiências difíceis na escola, com os amigos ou a família, mas agradecendo a quem os ajudou a superar.

Sobre utilizar o programa de forma semelhante como prevenção Miriam diz que é preciso ter cuidado, pois embora tenha trazido o problema para discussão, ele foi infeliz ao retratar com meios a morte da protagonista.

“Por um lado, foi uma coisa boa, porque estimulou o debate do suicídio, porém, a forma como foi feito isso, acho um tanto irresponsável. Ela não apenas mostra o suicídio com meios, o que já é bastante grave, como acabou glamourizando o ato, e isso é um erro muito grande. Acredito que a Netflix deveria ter um pouco mais de responsabilidade, especialmente, sendo essa série voltada como é, à população jovem”, afirma.

Vencer é mais que possível

A estudante de fisioterapia Juliane de 29 anos é um dos exemplos de que o suicídio não é a única saída para quem sofre. Há cinco anos atrás, aos 24 anos de idade, ela tentou tirar a própria vida, após ter a irmã assassinada.

“Desenvolvi síndrome do pânico, mania de perseguição, ouvia vozes mandando eu me matar também. Eu pensava que era inútil e tinha muito medo de ficar sozinha. Cheguei até mesmo a largar a faculdade”, afirma. Para superar, a jovem conta que o apoio recebido por uma amiga e o diálogo foram fatores essenciais.

“Eu tive ajuda de uma grande amiga. Ela conversou bastante comigo e me ajudou a ver que não iria adiantar me matar porque a minha irmã não iria voltar. Quem pensa em cometer suicídio deve sempre contar à outra pessoa o que está sentindo. Não há nada que não possamos resolver, mas para isso, precisamos estar em vida”, diz.(A Tarde)

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