Crianças e o vício de jogos pela Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem? Meu filho? Prestar atenção no que acontece com ele pode evitar muitos vícios

Por Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna. Fale com ele: saul.colunista@revistapaisefilhos.com.br.

Meses atrás recebi um adolescente de 16 anos, acompanhado de seus pais, em meu consultório. Logo na primeira frase veio a queixa: “Nosso filho é viciado”. Pensei de imediato estar diante de mais um caso inicial de drogadição, mais especificamente maconha. Mesmo assim, perguntei: “Mas que droga? E desde quando…?” Para minha surpresa, a resposta foi: “Não é nenhuma destas drogas conhecidas, ele é viciado em jogo. É isso mesmo, jogos no computador”.

E aí seguiram-se uma série de informações surpreendentes de um mundo que não era do meu conhecimento. O relato foi de uma programação de jogos que se iniciava por volta da meia noite e seguia até por volta das seis da manhã, com participantes de vários países. Segundo detalharam, envolvia apostas em dinheiro. o conteúdo desses jogos incluía atividades como o assalto a um banco visando a compra de drogas com o dinheiro.

Evidente que a atividade implicava noites sem dormir. Para recuperar o sono, o filho acabava dormindo toda a manhã e parte da tarde, atrapalhando suas atividades escolares.

Estamos novamente diante do dilema entre os benefícios trazidos pela tecnologia, que são inquestionáveis, e o seu uso inadequado. A solução para esses problemas exige estratégias criativas, para as quais eu ainda não estava preparado.

Certamente, aquele adolescente não se tornou viciado em jogos de computador nos dias que antecederam a consulta. Esse comportamento foi se instalando e crescendo por meses ou mesmo anos, em que os pais acreditavam que aquela ocupação do filho estava sendo importante para seu desenvolvimento, ampliando suas habilidades motoras e sua inteligência. Os pais não observaram a qualidade e o conteúdo desses jogos e nem o tempo que a atividade tomava.

Faz parte da conduta do adolescente querer ter sua privacidade, estar só no seu quarto e muitas vezes falar pouco do que está fazendo. É importante que os pais, com o devido cuidado, se interessem e busquem criar mais intimidade para ter acesso ao que está ocorrendo. Essa intimidade não acontece por decreto e deve ser construída pouco a pouco, desde o nascimento. Programas individualizados com os filhos, como saídas para compras, ver um filme ou ler um livro e comentá-lo, permitem diálogos que favorecerão uma relação mais próxima.

Essa intimidade instalada permitirá a observação e intervenção, por parte dos pais, quando houver desvios ou atitudes inadequadas do filho adolescente. Assim, essas atividades poderão ser contornadas, bem orientadas e aceitas sem provocar grandes turbilhões. Dessa forma, não só os jogos, mas também as “drogadições” poderão ser prevenidas.

Dr. Saul Cypel é professor livre-docente de Neurologia Infantil, consultor do Programa de Desenvolvimento Infantil  da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, diretor do Instituto de Neurodesenvolvimento Integrado (INDI) e neuropediatra.
(revistapaisefilhos.com.br)

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